Diferente de muitos textos atribuídos equivocadamente a Luiz Fernando Veríssimo, este que posto abaixo foi publicad numa edição da revista Domingo, que vinha encartada na edição de domingo do jornal O Globo nos anos 90; não tenho a data de publicação pois destaquei a página da revista e muitos anos depois eu o transcrevi e posto aqui no meu blog.
Lembrei desse texto porque apareceram algumas pessoas extremamente burras no programa Silvio Santos (o qual sou obrigado a pelo menos ouvir, já que meu pc fica na sala e minha mãe não abre mão dessa droga) e me lembrei de um trecho que pede que Deus nos livre da burrice alheia, pois a nossa até que é simpática...
Deus nos livre!!!
Luiz Fernando Veríssimo
Deus nos livre da doença, da miséria, do escapamento radioativo e das pessoas que cutucam e dizem: “Heim? Heim?”
Deus nos livre do pós-modernismo e da fome.
Deus nos livre de todos os “ismos”. Em especial do Botulismo.
Deus nos livre da censura.
E da morte prematura.
Deus nos livre da multidão.
Deus nos livre da solidão.
E Deus nos livre, peremptoriamente de jamais usar a palavra “peremptoriamente”.
Deus nos livre do lirismo e da coriza nasal.
Deus nos livre da paixão desenfreada e da grama artificial.
Deus nos livre da volta dos festivais da canção
E do nosso coração.
Deus nos livre dos bêbados que confidenciam.
Deus nos livre das mulheres que miam.
Deus nos livre de um dia acordar de ressaca, sair da cama e descobrir que estamos no palco do Teatro Municipal lotado.
Deus nos livre do requerimento em três vias, do protocolo, das fotografias 3x4, da ficha de chamada, da espera na fila e de descobrir que não é aqui, é no outro guichê.
Deus nos livre do outro guichê.
Deus nos livre da autoridade competente, que com a incompetente ainda há diálogo.
Deus nos livre da burrice dos outros, que a nossa até que é simpática.
Deus nos livre da terceira idade.
E da falsa humildade.
Deus nos livre da ira, da soberba, da gula, da luxúria, da avareza, da inveja, da preguiça, e desta mania de limpar o ouvido com a tampa da caneta Bic.
Deus nos livre da dissolução dos costumes.
E da terrível faca de dois gumes.
Deus nos livre dos que querem o nosso mal.
Deus nos livre dos que só querem o nosso bem.
Deus nos livre dos que querem o nosso.
Deus nos livre do despertador, da seborréia, das pessoas que nunca piscam e das que citam o Fukuyama.
Deus nos livre do mar de lama.
Deus nos livre da tragédia.
E da alta classe média.
Deus nos livre dos futurólogos.
Deus nos livre do futuro!
Deus nos livre do libelo.
E de todos os Collor de Mello.
Deus nos livre da superstição.
E de tanta assombração.
Deus nos livre de colidir com um meteoro e dos que pedem que Deus os livre.
Deus nos livre das bravatas.
Deus nos livre das gravatas.
E, meu Deus, dos plutocratas.
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domingo, 7 de março de 2010
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